Crônica de uma tragédia anunciada


Li Crônica de uma morte anunciada em uma só sentada. Foi a minha primeira experiência com Gabriel Garcia Márquez. Depois viriam Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera, Notícia de um sequestro e muitos outros. Gabo, como era chamado pelos amigos, foi tão importante na minha vida profissional que, olhando a partir de hoje, acredito que ele tenha me empurrado para o jornalismo. Mas este é assunto para outro texto. Quero falar agora sobre seu livro que narra a morte anunciada de Santiago Nasar pelos irmãos gêmeos Pedro e Pablo Vicário.

Muitas resenhas já foram escritas para explicar a capacidade de Garcia Márquez de segurar o leitor durante quase 200 páginas, mesmo tendo afirmado, no título e nas primeiras linhas do livro, o que iria acontecer, sem mistérios:

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo". É assim que começa o pequeno romance, ou novela, para ser mais exato.

Mais à frente, o autor nos conta também a suposta causa do crime e como ele será cometido. Ou seja, um spoiler atrás do outro. A arte de Gabo não está em "o quê" contar, mas sim em "como" contar. Subverte o paradigma narrativo ao segurar a leitora ou o leitor não pela surpresa que possa provocar a trama, mas sim pelo absurdo da situação. Santiago não sabe que será assassinado e nem existe motivo para o crime acontecer. Mesmo assim, ele acontecerá.

Acredito que Crônica de uma morte anunciada seja mais do que um exercício formal sobre o ato de contar uma história. Mesmo porque Tolstói já fizera algo parecido na novela A morte de Ivan Ilitch, em 1886, com outros propósitos.

Vejo o livro de Garcia Márquez como uma crítica política e social a uma certa condição latino-americana de aceitar as injustiças como parte de um plano divino. Os moradores da cidade onde Santiago será assassinado sabem que ele é inocente e que o crime irá acontecer, mas mesmo assim não fazem nada para evitá-lo.

É impossível ler Crônica de uma morte anunciada nos dias de hoje (o livro é de 1981), sem fazer uma comparação com o Brasil atual. Sabemos que nos próximos dias centenas de crimes serão cometidos no País, que uma multidão de inocentes serão mortos, mesmo assim não conseguimos fazer nada para evitar.

Não me refiro "apenas" aos crimes relativos à violência urbana comum. Lembro dos assassinatos encomendados em razão das disputas por terra; das lideranças indígenas, sindicais ou dos movimentos sociais que desaparecem por atrapalharem interesses mais altos; das crianças e jovens exterminados por milícias e esquadrões da morte; de jornalistas e servidores públicos (policiais inclusive) mortos durante o trabalho.

O livro de Gabriel Garcia Márquez parece nos lembrar que, mais do que medidas governamentais ou leis que endureçam a punição ao crime, precisamos urgente de uma nova mentalidade diante dessa desgraça nacional chamada homicídio. E aqui abro um parêntesis. O uso recente da expressão "feminicídio" agrega mais um dado ao problema da violência social. Se mulheres são mortas justamente por serem mulheres, isso torna nossa tragédia uma questão ética e moral.

Mas é preciso voltar ao livro de Gabriel Garcia Márquez, para encerrar este texto que começa a se perder.

Assim como, na condição de leitores, imploramos para que os moradores da pequena cidade onde mora Santiago Nasar impeçam que o crime ocorra (mesmo sabendo que ele irá ocorrer) não podemos mais continuar aceitando que assassinatos sejam cometidos aos milhares no Brasil, a cada ano, muitos sem razão e sem outra opção. Ao contrário do livro de Garcia Márquez, nossa história ainda não está escrita e pode ser mudada a qualquer momento.

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