Sem memória, não há museu que resista


Perder a memória, para uma pessoa, pode significar o fim da linha. Somos seres que lembram, ou relembram, o tempo todo. Dizem que alguns animais têm memória curta. Mesmo assim seguem vivendo sem problemas, pois não dependem dessa memória para sobreviver.

Nós humanos somos 100% memória. Do nascer ao pôr do sol da vida, acumulamos vivências, informações, lembranças e afetos que nos constroem, por dentro e por fora. Não por acaso o mal de alzheimer é hoje a mais temida das doenças degenerativas. Morte em vida, já disse alguém sobre ela.

O Brasil sempre foi acometido por um mal de alzheimer histórico. Apesar de termos um documento (a carta de Pero Vaz Caminha) que registra o nosso nascimento, ficamos mais de três séculos sem imprensa, ou seja, sem jornais e livros produzidos em solo pátrio. Seria como se no Brasil de hoje fosse proibido ter internet. Pois assim foi durante 308 anos, de 1500 a 1808.

Também só ganhamos nossa primeira universidade em 1932, quando outros países da América Latina já as tinha desde o século 17. Imprensa e universidades tardias, juntamente com quase quatro séculos de escravidão, formam um triste histórico social-cultural que explica muitos dos nossos problemas.

É um milagre que com esse passado tenhamos uma cultura popular tão rica, além de uma chamada “alta cultura” reconhecida dentro e fora do país, em diversas artes. Mas a nossa Memória, com M maiúsculo, esta sempre foi o patinho feio. E isso em todos os setores, dos museus históricos aos centros de documentação, passando pelas bibliotecas e arquivos públicos.

Essa desmemória material também implicou em uma desmemória política. Repetimos os erros do passado e tratamos como novidade o que, às vezes, é velharia.

Um exemplo atual. Ainda não conseguimos passar a limpo o período da ditadura militar. Daí que quando aparece uma onda pedindo a volta dos militares muitos olham com espanto. Mas o que esperar de uma sociedade que não aceita saber nem sequer a verdade sobre os crimes da ditadura? E estamos falando apenas em verdade, não em punição, que a legislação atual impede de acontecer.

O incêndio do Museu Nacional no último domingo foi uma catástrofe histórica, científica e artística, de dimensões inimagináveis. Mas independente da responsabilidade do governo atual, que de fato sucateou ainda mais os serviços públicos, acredito que todos nós temos uma parcela de culpa nessa história mal contada.

A memória de um país é projeto coletivo e não cabe apenas em museus. Enquanto o brasileiro tiver aversão ao passado e viver em um eterno e infantil presente contínuo, nós não aprenderemos a lidar com a nossa história e com a nossa memória.

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