Brasil de 2018 pode repetir Jânio e Collor


O Brasil que elegeu Jânio Quadros em 1960 e Fernando Collor em 1989 pode ser o mesmo Brasil que elegerá o próximo presidente da República em outubro. Ambos os candidatos surgiram em campanhas monotemáticas, onde o espírito da moralidade pública era o cerne das plataformas políticas.

Jânio prometia varrer a corrupção, supostamente implantada pelos 50 anos em 5 do governo Juscelino Kubitschek. Collor iria acabar com os marajás do serviço público e implantar a austeridade fiscal no País. Os dois acabaram mal, menos pela ação de forças ocultas e mais pelo vazio das propostas. O Brasil é muito mais complexo do que tudo isso e governar para a maioria exige uma proposta ética, que vai muito além do discurso moralizante fast-food do tipo lava-jato.

Em seu novo livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Editora Leya), o sociólogo Jessé Souza retoma algumas ideias defendidas em obras anteriores (“A tolice da inteligência brasileira” e “A radiografia do golpe”), para mostrar que o discurso do combate à corrupção no estado brasileiro sempre surgiu quando a elite quis retomar o poder perdido para forças populares, ou populistas, como querem os críticos de direita, ou para evitar que a chamada esquerda vença a disputa eleitoral.

Foi assim em 1960 e em 1989, e o modelo repetiu-se em 2016, no processo de desestabilização do governo Dilma Rousseff, que culminou com o impeachment da presidente reeleita. A vassoura de Jânio que iria varrer a corrupção, o caçador de marajás das Alagoas que iria acabar com as mordomias e a Operação Lava Jato que pretende moralizar a política no Brasil (em ação desde 2014 e sem prazo para acabar), têm mais semelhanças do que diferenças.

É que tais semelhanças são teóricas, segundo Jessé Souza. O pesquisador mostra que o discurso que sempre tenta colocar na conta do estado corrupto a culpa pelas nossas mazelas tem raízes profundas. Mais precisamente na obra de três grandes pensadores brasileiros do século passado: Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro.

Na visão de Jessé, ao forçarem uma interpretação negativa do Brasil que teria raízes no estado português do século 14 – estado este erroneamente apontado como corrupto e patrimonialista, pois naquele século ainda não existia uma separação clara entre público e privado – tais autores teriam criado o mito de que todo o mal da nossa política se localiza sempre no governo e nunca no mercado.

Para Jessé Souza, o que condiciona o Brasil é o seu passado escravocrata e a permanente má distribuição de renda. Ao mudar o foco da desigualdade para a corrupção do estado, a elite (e a classe média, por supuesto), mantem inalterado o modelo perverso de dominação no Brasil, onde menos de 1% da população ganhava, em 2017, segundo o IBGE, 36 vezes mais do que a metade dos mais pobres. Somos uma das dez maiores economias do mundo, mas em distribuição de renda ocupamos o 79º lugar entre 188 nações. Precisa dizer mais alguma coisa? Mas vamos em frente.

Para Jessé Souza, a elite paulista derrotada por Getúlio Vargas e pela Revolução de 1930 decidiu, após 1932, quando foi novamente derrotada pelas forças federais durante a Revolução Constitucionalista, investir em criar sua própria narrativa sobre a história do Brasil. Não é por caso, segundo ele, que em 1934 surge a Universidade de São Paulo (USP), berço do pensamento liberal nacional.

Como lembra o autor no livro, são os cientistas sociais formados pela USP que produzirão as ideias que serão usadas pela elite e pelos meios de comunicação para forjar um modelo sobre a nossa cultura. A classe média, ainda segundo Jessé, será a grande perpetuadora dessa ideologia. Não por acaso que nos anos seguintes surgirá no Brasil a União Democrática Nacional (UDN), partido fundado em 1945 e que, sob o comando de Carlos Lacerda, será o grande porta voz desse discurso moralista/classe média. Nada é por acaso em política, diga-se de passagem.

Em um parágrafo Jessé Souza resume bem essa ideia:

“A Universidade do Estado de São Paulo foi criada por essa mesma elite desbancada do poder político, e pensada como a base simbólica, uma espécie de think tank gigantesco, do liberalismo brasileiro a partir de então. E também desse projeto bem urdido de contrapor a força das ideias generalizadas na sociedade contra o poder estatal desde que este seja ocupado pelo inimigo político à época representado por Getúlio Vargas. Sérgio Buarque é menos o criador e mais o sistematizador mais convincente do moralismo vira-lata que irá valer, a partir de então, como versão oficial pseudocrítica do país acerca de si mesmo. Como o estado corrupto passa a ser identificado como o mal maior da nação, a elite do dinheiro ganha uma espécie de carta na manga que pode ser usada a partir de então sempre que a soberania popular ponha, inadvertidamente, alguém contrário aos interesses do poder econômico”.

A eleição de 2018 representa, de certa forma, essa dicotomia nascida nos anos 1930 do século passado e que permanece atuando até hoje. O PT de Lula, principalmente, mas também Ciro e Boulos, são os herdeiros das teses de esquerda e de uma visão política voltada para problemas tais como crescimento econômico, distribuição de renda e forte investimento estatal em políticas públicas. O outro grupo, formado por Bolsonaro, Alckmin, Álvaro Dias e Amoedo, além da agenda liberal, batem na tecla da corrupção quase todos dias, como forma de se diferenciar do candidato do PT, uma espécie de Getúlio Vargas do século 21. Resta Marina Silva, cuja posição é sempre indefinida, mas que também, sempre que pode, tenta se diferenciar do bloco petista usando argumentos moralistas, quando não religiosos.

Para Jessé Souza, as classes populares desconfiam, com razão, de uma política que percebem como “jogo de ricos” e adotam uma postura pragmática de esperar para ver o que sobra para eles. E completa:

“Para mim, confesso, esse racionalismo prático das classes populares me parece bem mais sensato e inteligente do que uma classe média ressentida e insegura, vítima fácil de qualquer moralismo que a faça se sentir melhor do que ela é”.

Ler o livro de Jessé Souza pode ajudar o eleitor a enxergar melhor as armadilhas teóricas plantadas lá atrás, mas que continuam fazendo vítimas até hoje, em sua maioria os pobres e a própria classe média, que repete o mantra da moralidade de tempos em tempos.

Serviço:

A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato

Autor: Jessé Souza

Editora Leya

140 páginas

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