Café com leitura

Aconteceu lá em Aparecida de Goiânia, uma cidade colada à capital de Goiás, pelo nono ano consecutivo, um evento muito bacana. Chama-se Café com Leitura. Tudo começa, como o próprio diz, com um belo café da manhã, realizado na praça de alimentação de um shopping center, acompanhado de boa música. Este ano foi um grupo de chorinho, formado por alunos do Instituto Federal de Goiás, o IFG.

Após o café e o choro, os participantes se reúnem em uma das salas de cinema do shopping para falar sobre literatura. E são muitos. No evento deste ano eu estimei mais de 300. A maioria jovens. O convidado do 9º Café com Leitura foi o escritor pernambucano Marcelino Freire.

Marcelino Freire é autor do romance “Nossos Ossos”, com o qual ganhou o prêmio Machado de Assis em 2014 de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional. Também escreveu “Angu de Sangue” e “Contos Negreiros”, este último Prêmio Jabuti de 2006. É também o criador da Balada Literária, evento que há 12 anos reúne escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena.

Durante quase três horas Marcelino Freire conversou sobre livros e leituras, contando sua história, declamando versos e provocando os interlocutores com perguntas e piadas. Mostrou que é possível falar de literatura sem pompa, e em qualquer circunstância. E a sala de cinema se mostrou um ótimo lugar para a conversa. Acústica boa, cadeiras confortáveis, só faltou a pipoca e o refrigerante.

Perdi as minhas anotações e vou tentar lembrar de cabeça algumas frases e momentos. Marcelino Freire conta que foi a leitura e a escrita que o salvaram. Vivendo em meio a pessoas analfabetas, no interior do sertão, usava seus conhecimentos para ler bulas de remédio e escrever cartas para os que não sabiam ler e escrever.

O interessante é que, quando decidiu fazer literatura, já adulto, recorreu aos falares daquelas pessoas analfabetas, familiares e vizinhos, para tecer seus poemas e narrativas. Sua literatura dá voz aos que não têm voz. “Eu escrevo porque escuto, porque leio a rua”, disse Freire.

Caçula de 14 irmãos, Marcelino Freire diz que não nasceu, mas escapou. Naquela época, segundo ele, de dez crianças que nasciam no sertão pernambucano, apenas sete sobreviviam. Natural de Sertânia, o escritor recupera as vozes dessa gente que falava muito, mas que não sabia ler e escrever, e dessas vozes faz sua literatura. Seu conto Totonha, lido um trecho durante o Café com Leitura, é um belo exemplo do que ele faz. “Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda, o prefeito que aprenda, o doutor, o presidente é que precisa saber ler, o que assinou. Eu é que não vou baixar a minha cabeça pra escrever. Não vou.”

Se alguém quiser começar a ler Marcelino Freire, sugiro Contos Negreiros. Cortantes e ferinos, ele se inspirou em clássicos brasileiros como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Jorge de Lima para criar os contos deste livro. É uma releitura moderna do preconceito. Contos Negreiros trata, com ironia e bom humor, questões como o racismo, a homossexualidade e o conflito de classes.

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