Escravidão e literatura


O Brasil foi o país que recebeu mais africanos escravizados entre os séculos 16 e 19 e o último do mundo a acabar com o cativeiro. Nossa literatura, no entanto, não reflete essa realidade. O tema do escravismo e da fuga dos escravos mereceu pouca ou nenhuma atenção dos nossos escritores.

Acontecimentos históricos da importância de um Quilombo dos Palmares, por exemplo, que renderam numerosos estudos nas ciências sociais, não foram, até hoje, transformados em tema literário que chegasse a atingir o grande público. Enquanto nossa arte musical reflete plenamente nossa cultura negra ancestral, nossa literatura continua majoritariamente branca e europeia.

O mesmo não aconteceu nos Estados Unidos, onde a presença negra – do ponto de vista demográfico – não teve o mesmo peso que no Brasil. No entanto, lá, o tema da escravidão rendeu uma literatura de primeira. Milhares de páginas foram escritas em quase dois séculos para contar histórias de sofrimento e de fuga de escravos nos Estados Unidos. Desde o clássico A Cabana do Pai Tomás, da escritora Harriet Beecher Stowe, publicado em 1852, até o popular Negras Raízes, de Alex Haley (1976), os relatos sobre a escravidão sempre tiveram peso no imaginário da cultura norte-americana.

Essa tradição ganhou mais um título de peso, com o livro The underground railroad: os caminhos para a liberdade, do escritor norte-americano Colson Whitehead, prêmio Pulitzer no ano passado. Ao recriar a história do "underground railroad" (uma rede de rotas clandestinas existente nos Estados Unidos durante os séculos 18 e 19, que era usada para a fuga de escravos do Sul para os estados do Norte ou para o Canadá) o autor usa a força da ficção para reatualizar o tema.

A protagonista do romance, Cora, é uma mulher que não sabe a própria idade, não possui família e é tradada com desprezo mesmo por outros negros que dividem o trabalho com ela em uma fazenda de algodão na Geórgia. Deslocada entre os seus iguais e maltratada pelos brancos, Cora passa o tempo todo se lamentando pelo fato de ter sido abandonada ainda criança pela mãe - que fugiu da fazenda após ser estuprada - e defendendo com unhas e dentes um minúsculo pedaço de terra onde planta rabanetes.

A história de Cora começa a mudar quando ela conhece Caeser, um escravo letrado que, antes de vir parar na fazenda da Geórgia, teve uma adolescência feliz vivendo com a família na casa de uma viúva branca.

Cora e Caeser decidem fugir e ir em busca de uma mítica estrada de ferro subterrânea que os faria encontrar o caminho da liberdade. Paro por aqui para não retirar dos leitores o prazer pela descoberta.

Whitehead inova ao retomar a saga do escravo fugido, mas dando a ela um tom de realismo fantástico. A rede de colaboradores que permitia a fuga de escravos torna-se, em seu livro, uma linha férrea real, por onde desfilam todas as mazelas, preconceitos e riquezas da história dos Estados Unidos.

Outra característica que chama atenção na obra de Whitehead é a forma atemporal como conta a história e a divisão do livro em capítulos que mais se parecem contos, mas que ainda assim são lidos como uma unidade. Ele consegue inovar na forma de contar, sem, contudo, abandonar a intenção de narrar uma ótima história de negros fugitivos.

Nascido em Nova York, em 1969, em uma família de afrodescendentes de classe média alta, Colson Whitehead cresceu em Manhattan, estudou em excelentes colégios e conviveu com artistas e gente endinheirada. Fez sucesso com a crítica em romances anteriores, mas foi The underground railroad que o tornou conhecido pelo grande público. Recebeu vários prêmios e foi indicado por dois leitores de peso: o ex-presidente Barack Obama e a apresentadora Oprah Winfrey.

O que mais impressiona em Whitehead é que o livro dele é literatura de primeira, que não faz concessões ao mercado editorial, e que mesmo assim consegue atingir o grande público. Uma façanha e tanto.

Na semana em que se completam 130 anos da lei que acabou oficialmente com a escravidão no Brasil – mas que manteve inalterado o modelo perverso de submissão dos afrodescendentes - talvez seja bom refletir sobre a carência de escritoras e escritores negros em nosso país e, por tabela, sobre a falta de títulos de ficção que nos façam refletir sobre nossa herança escravagista.

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