120 anos depois, o J'Accuse de Émile Zola se encaixa no Brasil de hoje


Há 120 anos o escritor francês Émile Zola era condenado a um ano de prisão e multa de três mil francos por causa de um artigo, publicado no dia 13 de janeiro de 1898 em um jornal de Paris, o L’Aurore. Dez dias depois ele seria julgado e condenado, sumariamente, por ofender o Estado-Maior francês. No texto, Zola fazia a defesa do capitão do Exército Alfred Dreyfus, condenado por traição por haver supostamente repassado documentos sobre a defesa nacional aos alemães.

Condenado em 1895 ao degredo perpétuo em uma colônia penal da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, Dreyfus, soube-se depois, era inocente. Judeu em um Exército de arianos, Dreyfus pagou o preço do antissemitismo que, em breve, iria dominar a Europa.

A carta de Émile Zola foi dirigida ao presidente da República Félix Faure e foi um verdadeiro petardo contra o alto comando do Exército. Ao final, Zola fez uma série de acusações contra nomes da elite militar. Repetindo antes de seus argumentos a expressão J’Accuse (Eu acuso), o escritor, autor de dezenas de romances, entre os quais o clássico Germinal, mostrou que o julgamento de Dreyfus fora uma fraude.

O J’Accuse virou sinônimo de polêmica e de como intelectuais e escritores podem inflamar a opinião pública quando decidem se posicionar sobre temas políticos ou sociais. O historiador francês Henri Guillemin explica que a atitude de Zola exigiu inteligência, mas também coragem. J’Accuse se posiciona contra as condenações de Dreyfus e a absolvição de outro oficial, Esterhazy, este sim o homem que repassou segredos aos alemães. Ao enfrentar o Exército, Zola atraiu a ira não só dos militares, mas também de boa parte da imprensa e da opinião pública.

Sem Zola, completa Guilemin, Dreyfus teria morrido na prisão.

Mas o que mais impressiona no J’Accuse é a atualidade do assunto e dos argumentos apresentados. Separei aqui alguns trechos dos vários artigos escritos por Émile Zola sobre o caso Dreyfus, que bem poderiam ser usados no Brasil de hoje.

“A imprensa é uma força necessária; creio, em suma, que ela faz mais bem do que mal. Mesmo assim alguns jornais são culpados, uns por desnortear, outros por aterrorizar, por criar escândalos a fim de triplicar suas vendas.”

“As mentiras se espalham, as histórias mais tolas são reproduzidas pelos jornais sérios, a nação inteira parece atingida de loucura, quando bastaria um pouco de bom-senso para recolocar as coisas no lugar.”

“A verdade está em marcha e nada a deterá.”

"Um erro judiciário foi cometido e, enquanto não for reparado, a França sofrerá, doentia, como de um câncer secreto que aos poucos destrói a carne. E se, para restituir-lhe a saúde, há que cortar alguns membros, que eles sejam cortados!”.

“E, diante dos condutores de multidão, dos jornais que amatilham a opinião pública, o terror reinou. Nenhum membro de nossas assembleias elevou um grito de homem honesto, todos ficaram mudos, hesitantes, prisioneiros de seus grupos, todos tiveram medo da opinião pública, preocupados certamente com as próximas eleições.”

“Ele (Dreyfus) não pode voltar a ser inocente sem que todo o Estado-Maior seja culpado. Assim o ministério, por todos os meios imagináveis, por campanhas de imprensa (...) só acobertou Esterhazy para condenar uma segunda vez Dreyfus”.

“Acuso o ministério da Guerra de ter conduzido na imprensa, particularmente no L’Eclair e no L’Echo de Paris, uma campanha abominável para desencaminhar a opinião pública e encobrir seu próprio erro.”

Ao fazer as acusações, Zola reconheceu que poderia ser acusado de difamação com base na lei de imprensa e diz ao final do J’Accuse que é voluntariamente que se expõe.

O governo decide processá-lo por difamação.

Diante dos juízes, ele mesmo faz sua defesa ao dizer que “ao me punir, não fareis senão me engrandecer. Quem sofre pela verdade e a justiça torna-se augusto e sagrado.”

No dia 23 de fevereiro de 1898 ele é julgado culpado pela publicação da carta J’Accuse. Precisa fugir da França para não ser preso e fica um ano em Londres, sob a proteção de amigos, até que em 1901 é anistiado, quando já havia voltado ao seu país e aguardava um recurso apresentado à Justiça.

A anistia também atinge Dreyfus, o que provoca ainda a ira de Zola. Segundo ele, anistia era para quem havia cometido algum crime e Dreyfus era completamente inocente.

Encerro aqui este artigo com mais alguns trechos escritos por Émile Zola, a respeito do seu julgamento.

“Não compreendeis que o que está matando a nação é a escuridão na qual se obstinam em deixá-la, é o equívoco no qual ela agoniza? As faltas dos governantes se acumulam, uma mentira exige outra, criando um monte assustador de mentiras. Um erro judiciário foi cometido e, desde então, para ocultá-lo, foi preciso diariamente cometer um novo atentado ao bom-senso e à equidade.”

“Tudo parece estar contra mim, as duas Câmaras, o poder civil, o poder militar, os jornais de grande tiragem, a opinião pública que eles envenenaram. Tenho a meu favor apenas a ideia, um ideal de verdade e justiça. E estou tranquilo, vencerei.”

E encerro com uma frase lapidar de Émile Zola: “O copo está cheio, eu vos digo, não o façais transbordar.”

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