O homem lento

January 23, 2018

Nunca gostei de velocidade. Carros velozes, motocicletas furiosas e aviões supersônicos sempre foram para mim algo distante. Prefiro olhar com calma a paisagem, ver passar o tempo pelas janelas, conhecer os lugares a pé ou de bicicleta. Claro que tudo isso é pura idealização, pois moro em uma cidade onde os automóveis reinam e a velocidade média das vias é a maior do Brasil. Então, tive que me adaptar. Passo em média uma hora e meia por dia dentro de um veículo, sonhando viver em um lugar onde eu possa caminhar pela cidade e deixar o carro descansar na garagem e sair somente para aventuras rurais.

 

 

Mas já que a realidade para nós brasilienses é esse limão azedo (para quem depende de ônibus a situação é muito pior), precisamos aprender a fazer limonadas todos os dias. Dia desses aprendi uma receita de limonada muito boa com o carioca Silvano. Ele foi jogador de futebol nos anos 1980, jogou no América do Rio quando o time disputava um lugar ao Sol com os grandes cariocas. Veio jogar bola em Brasília, no final da carreira, e por aqui ficou.

 

Certo dia, Silvano sentiu que alguma coisa havia de errado com ele e decidiu buscar aconselhamento com uma psicóloga amiga. Andava muito ansioso, o que talvez tivesse a ver com o fato de que, com o joelho machucado, ficara temporariamente sem jogar bola. Saiu da conversa com uma tarefa. Deveria desacelerar, em especial no trânsito.

 

“Quando você ver um sinal amarelo, desacelere. Nada de acelerar para evitar o vermelho. Se a velocidade máxima da via é 40 km, ande, no máximo, a 40 km. Nunca mais do que isso”, disse a psicóloga. Para a profissional, aquilo seria um exercício para Silvano controlar a ansiedade. Ou seja, usar o trânsito, um espaço onde passamos muito tempo, em especial nas grandes cidades, para treinar a mente.

 

Silvano aceitou o desafio e não se arrependeu. “Em poucos dias senti o efeito”, me disse. Na opinião dele, nós, seres urbanos, transferimos para o trânsito muitas de nossas frustrações. Vez por outra vemos motoristas xingando ou buzinando nas ruas por quase nada. As altas velocidades, então, são a pior parte dessa tragédia. Motoristas pisam no acelerador e imaginam que, com isso, estão mudando de dimensão, correndo pelas vias de outro universo. Ele e o seu carro veloz seriam uma coisa só, trafegando por um espaço transcendental.

 

Mas logo ali do lado existem pessoas de carne e osso, e a velocidade, nesse caso, é sinônimo de violência e morte.

 

Silvano tornou-se um homem lento, na melhor acepção do termo. Sem pressa de chegar a algum lugar, dirige sempre na velocidade máxima da via e nunca acelera quando vê o sinal amarelo. “O alerta amarelo foi criado para diminuir e não para aumentar a velocidade”, concluiu com sabedoria. Esse Silvano é um craque, dentro e fora do campo.

 

 

 

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