Por que tantos negros são mortos por policiais nos Estados Unidos?

Testes com videogames explicam o porquê

Há muito já se sabe que nos Estados Unidos a proporção de negros mortos por policiais é muito maior do que a proporção de brancos mortos por policiais. O problema, porém, é entender o porquê. Até pouco tempo atrás, havia duas teorias bastante fortes para explicar esse fenômeno. A primeira dizia que os negros eram alvo de preconceito. A segunda dizia que os negros eram mais alvejados simplesmente porque as populações dos bairros pobres e de maior criminalidade eram predominantemente negras. Os ativistas negros, obviamente, se sentiam apoiados e compreendidos pelos cientistas sociais que defendiam a primeira teoria. A segunda teoria parecia excessivamente conservadora e reacionária. Porém, o fato é que ela constituía uma explicação plausível.

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology desequilibrou radicalmente o fiel da balança (Correll et al 2002; ver também Correll et al 2007). Infelizmente, porém, os seus resultados ainda não foram suficientemente disseminados e absorvidos pela população de forma geral, o que leva muitas pessoas a acreditarem que os membros da força policial não estão agindo de maneira injusta, brutal e preconceituosa, apenas cumprindo o seu papel de defensores da lei sob condições perigosas e longe de serem ideais.

Usando um videogame, a equipe de Correll estudou a influência da cor da pele das pessoas que estão sob a mira de policiais sobre a decisão destes de puxarem o gatilho. O experimento foi bastante simples. No videogame, os policiais eram confrontados ora com brancos armados, ora com brancos desarmados, ora com negros armados, e ora com negros desarmados. Quando o alvo estava armado, eles precisavam atirar. Quando o alvo estava desarmado, eles tinham que segurar o dedo. E o que eles descobriram? Os policiais atiravam muito mais rápido quando o alvo era um negro armado do que quando era um branco armado. Os defensores daquela teoria de que os negros eram mais alvejados simplesmente por viverem em bairros mais pobres e violentos agora têm um enorme abacaxi para descascar.

Eu acho que precisamos ouvir mais os ativistas. Precisamos realmente levá-los a sério. Como eles geralmente possuem um poder de observação extremamente aguçado, e como eles estão constantemente trocando informações entre si, é bastante provável que as ideias que eles defendem estejam muito bem fundamentadas. Aliás, muito mais bem fundamentadas do que um cientista social conservador pode imaginar. Se eu tivesse que apostar as minhas fichas, eu iria, sem dúvida, preferir apostá-las nas ideias defendidas por milhares e milhares de ativistas ao longo de gerações e gerações do que nas ideias de cientistas sociais irresponsáveis que adotam teorias conservadoras sem realmente testá-las empiricamente.

Os problemas atuais do mundo – os níveis absurdos de desigualdade econômica, o ritmo assustador de extinção de espécies e de destruição dos ecossistemas, as múltiplas e brutais formas de preconceito que deixam – são problemas de todos. Acho que seria uma boa ideia, uma excelente ideia, se os membros da comunidade científica ouvissem mais os ativistas e dessem preferência a pesquisas mais engajadas, pesquisas que tenham um potencial transformador e que possam ajudar os ativistas a abrirem os olhos dos legisladores. Quem está morrendo de fome não pode esperar. Quem está sendo agredido fisicamente por conta de suas preferências sexuais não pode esperar. Quem está sendo assassinado por quem deveria estar ali para ajudar não pode esperar. A julgar pelas notícias que vemos diariamente nos jornais brasileiros, os nossos cientistas sociais têm oportunidades de sobra para fazer pesquisas que possam ser utilizadas pelos ativistas em suas lutas contra estruturas opressivas e ultrapassadas.

Este Estados Unidos que mata muito mais negros que brancos não é o modelo de país que estamos acostumados a reverenciar aqui no Brasil. É preciso que os nossos cientistas sociais comecem a produzir estudos aqui no Brasil que questionem modelos sociais ultrapassados.

CORRELL, Joshua et al. “The Police Officer’s Dilemma: Using Ethnicity to Disambiguate Potentially Threatening Individuals.” In: Journal of Personality and Social Psychology , Vol. 83, No. 6, 2002, pp. 1314–1329.

CORRELL, Joshua et al. “The influence of stereotypes on decisions to shoot.” In: European Journal of Social Psychology, 37, 2007, pp.1102–1117.

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